Vasco Trancoso – Fotografia de Rua: Tornar visível o invisível

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© Vasco Trancoso

Fotografia de Rua: Tornar visível o invisível.

Uma entrevista com o fotógrafo Vasco Trancoso por Kent Dufault.

“Estou emocionalmente esgotado.
Passei as últimas três horas a estudar fotografias criadas pelo fotógrafo Português, treat Vasco Trancoso.
Num mundo onde cada vez mais somos inundados com imagens, já se sentiu compelido a olhar para o trabalho de um só fotógrafo durante aquele período de tempo?
Provavelmente não, e esta é a primeira pista para se perceber que o Fotógrafo Vasco Trancoso é alguém incrível!
O seu trabalho reúne um conjunto de habilitações fotográficas que poucos possuem. Na verdade, para além de alguns dos Mestres Fotógrafos dos primórdios da fotografia de rua, eu não estou certo de alguma vez me ter deparado com alguém com um conjunto tão apurado de talentos estéticos, psicológicos e atléticos como Vasco Trancoso.

Explicando melhor:

Estética: As suas imagens mostram consistentemente o “Momento Decisivo” que muitas fotografias de ruas de hoje simplesmente não possuem. Também tem um impecável sentido de composição – colocando todo e qualquer elemento no local perfeito dentro do enquadramento da imagem.

Psicológica: Ao apreciar as suas fotografias ao longo desta entrevista (sugeria também a visita ao seu blog em www.vascotranscoso.blogspot.com para continuar a ver o seu trabalho) irá notar que ele tem uma intimidade com seus modelos que, em certos momentos, pode ser quase desconcertante. Os seus olhos, e câmara, são uma janela para as almas, e cenas, que fotografa. É claramente um homem que pensa profundamente. Cada imagem tem um significado. Muitas vezes estes significados são claros nas suas capturas – mas outras vezes deixa enigmas para os outros descobrirem. Você não tem outra opção senão escrutinar cada centímetro das suas fotografias, em busca de pistas que sente estarem lá.

Atlética: Vasco Trancoso escolheu a Fotografia de Rua como o seu ponto de encontro. A Fotografia de Rua é, sob diversos pontos de vista, um desafio, mas, sobretudo, porque requer que o fotógrafo interaja com estranhos. Às vezes, esses estranhos não gostam do que o fotógrafo está fazer e por isso necessita coragem. Vasco Trancoso não fotografa apenas estranhos; mas fica muito perto dos seus rostos. E, apesar de isso, as pessoas parecem libertar todo o seu ser para a sua câmara, o que nos leva à segunda parte da sua competência atlética. O tempo certo do disparo é uma característica dos bons fotógrafos que parece estar a desaparecer numa altura em que proliferam as imagens online. Hoje todos fazem fotos, treatment aplicam alguma manipulação digital, e depois julgam logo que são obras-primas. O “timing” adequado é a base essencial onde a Fotografia de Rua começou. O “Momento Decisivo” como baptisado por Henri Cartier-Bresson tem a ver com tempo e antecipação. É sobre a capacidade de capturar o pico da acção numa composição agradável. Alguma capacidade para se conseguir o tempo certo pode ser aprendida. Mas exibir um sentido tão agudo do “timing”, numa ampla faixa de trabalho, coloca Vasco Trancoso na categoria da elite dos fotógrafos de rua geniais.

Vasco Trancoso iniciou-se na fotografia ainda numa idade jovem, mas optou por praticar a medicina como profissão.
No entanto, talvez, o seu trabalho como médico o tenha preparado para se tornar o artista que é hoje. Acredito que provavelmente assim é, especialmente com a sua capacidade de lidar com estranhos com compaixão e amor.
Retirei a seguinte citação de seu blogue pois julgo que será esclarecedora do que pretendo transmitir.

Fotografo muitas vezes aqueles que devido a alguma deficiência são habitualmente excluídos e formam como um outro povo aparentemente invisível para o resto da sociedade. Caminhar ao lado dessas pessoas não será perda de tempo já que fotografar pelas ruas também é tornar visível o invisível.

Faço-me entender? Este homem irradia calor, amor e preocupação com seus companheiros seres humanos!

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© Vasco Trancoso

Não consigo contar quantas vezes esta frase se tem repetido na minha cabeça desde que a li: “fotografar pelas ruas também é tornar visível o invisível.”
As fotografias de Vasco Trancoso já ganharam inúmeros prêmios, e muitas têm sido publicadas em vários livros. O seu nome é bem reconhecido na comunidade fotográfica portuguesa.

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© Vasco Trancoso

 

Eu fico sempre muito entusiasmado quando entrevisto um fotógrafo cujo trabalho respeito.
Mas esta entrevista… Esta entrevista é algo especial. Não vai ser simplesmente apenas sobre fotografia. Vou fazer algumas perguntas técnicas – claro. Mas, o que eu estou realmente interessado em (e espero que o leitor também esteja) é sobre o que torna este homem tão motivante. Como é que ele consegue mudar de carreira profissional numa data tardia na vida e tão magistralmente capturar um gênero de fotografia que muito, muito, poucos são tão capazes?

Vamos descobrir.

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© Vasco Trancoso

 

Kent Dufault: “Vasco, obrigado por me dar a oportunidade de entrevistá-lo. Diga-me, num dia normal, quando pega na sua câmara, e parte pelas ruas, o que pensa? Tem um plano prévio? Ou simplesmente vai caminhando e vendo o que a vida lhe apresenta? ”

Vasco Trancoso: Obrigado Kent pela simpatia e convite. Foi uma boa surpresa. Fico feliz em partilhar não só algumas imagens, mas também por falar sobre algo que eu amo: Fotografia.
A fotografia feita nas ruas fascina-me também pela imprevisibilidade, tal como o Jazz e a Vida. Tenho uma rotina diária, onde faço fotografia principalmente para mim e por puro prazer. Normalmente não tenho um plano pré-determinado. Às vezes tenho locais referenciados – como uma parede com anúncios ou vitrinas – que podem vir a ser um fundo apropriado para uma boa composição – se aparecer o protagonista certo. Mas não espero muito tempo. Adoro passear aleatoriamente na esperança de encontrar um dos milagres quotidianos que acontecem muitas vezes pelas ruas. O mundo está cheio de oportunidades para fazer grandes fotografias que ainda não foram captadas. A beleza está em toda parte. Claro que muitas vezes acho que tenho muita sorte e que o Deus dos fotógrafos me protegeu – no momento certo.

KD: “Muitas das suas fotografias são retratos close-up extremo. A câmara quase parece tocar o rosto da pessoa. Isto faz pensar que a pessoa poderia ficar desconfortável. No entanto, essa sensação não transparece das suas fotografias. As pessoas parecem dar-lhe abertamente algo que vem de dentro das suas almas. Pode elaborar sobre como consegue obter estes resultados? Como consegue colocar a sua câmara quase junto do rosto de um estranho e tê-lo de alma aberta para você? ”

VT: No caso dos retratos close-up, geralmente, enquanto converso com as pessoas que vou conhecendo, olha-os nos olhos e fotografo com a câmara no nível do peito ou da cintura – e o mais próximo possível. Não peço para as pessoas sorrirem. Evito sorrisos estereotipados. Procuro expressões genuínas que surgem espontaneamente durante a conversa. É importante ouvir os outros e manter uma abordagem honesta e amigável. Muitas vezes acontece que depois da conversa e depois das fotos, as pessoas se sentem melhor das suas angústias e preocupações. E sinto o que eu sentia antes, como médico: Feliz por ter ajudado os outros. Mas eu também estou, simultaneamente, a ajudar-me a mim próprio.
Ao enfrentar os outros acabo também por me enfrentar a mim próprio. A fotografia feita nas ruas é, para mim, um difícil exercício de comunicabilidade que me obriga a ultrapassar a minha timidez natural e ser uma pessoa melhor. Fotografo para aprender. E a minha curva de aprendizagem ainda está a subir. Afinal tudo um sinal de que a busca pessoal e a descoberta continuam. Fora e dentro de mim.
Percebi que a fotografia também é uma forma de pensar. Fotografar nas ruas de uma cidade é uma aprendizagem constante que exige reflexão – especialmente sobre a vida das pessoas. É afinal um acto de amor / compaixão contado por imagens.

KD: “Li com grande interesse um seu “post” intitulado “Depois da Fotografia “, que foi publicado em 18 de janeiro de 2015. Você parece ter fortes convicções filosóficas sobre o impacto da fotografia no passado, e sobre o seu futuro. Fui especialmente sensível ao seu comentário, de que a fotografia hoje não é tanto uma arte mas antes uma ferramenta de auto-gratificação – como por exemplo as “selfies”. Pode resumir aos nossos leitores o que pensa sobre o papel da fotografia na sociedade de hoje, e o que significará no futuro? ”

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© Vasco Trancoso

 

VT:  São cada vez mais as pessoas que não praticam a fotografia como uma arte. Em vez disso (como previsto por Susan Sontag) a fotografia tornou-se um utilitário cultural num mundo onde aumentou a insaciabilidade do olho que fotografa. A sua difusão cresceu, mormente nas redes sociais onde as pessoas precisam de ver confirmada a sua visão da realidade por meio de fotografias – num crescente consumismo estético – e onde proliferam as “selfies” nos mais diversos contextos do dia-a-dia de cada um, propiciando cada vez mais o seu aproveitamento por terceiros – bem como por eventuais mecanismos de controlo.
A fotografia social tem evoluído, com a ajuda das novas tecnologias, para um novo paradigma: As pessoas envolvidas nas situações tendem a surgir registando os eventos com maior verdade. Um amador beneficiando do conhecimento prévio da cultura, do lugar e das pessoas, está em melhores condições para transmitir em imagens as entrelinhas do tecido social onde se insere. Um fotógrafo profissional, mas forasteiro, terá à partida maior dificuldade em integrar-se e ser aceite pela mesma comunidade. O grau de confiança e do à vontade da comunidade perante os dois tipos de fotógrafos é bem diferente. A atenção centra-se mais nas surpresas e nas emoções do dia-a-dia da comunidade.
Por outro lado as máquinas fotográficas tendem a ser cada vez mais pequenas e com capacidade para colherem imagens com qualidade crescente. Os caminhos do futuro apontam para máquinas do tamanho de “smartphones” mas capazes de produzir imagens com a mesma ou maior qualidade das actuais topo de gama e com menor complexidade de funcionamento.
Depois da fotografia tal como a conhecemos hoje, provavelmente quase todos terão mini camaras digitais de “apontar e clicar” ligadas às redes sociais (e ou a organizações governamentais que controlarão o processamento das imagens e a difusão de um novo mundo digital).

KD: “As suas fotografias de rua mostram dois estilos distintos. Ou a fotografia de maior amplitude envolvendo vários elementos e situações complexas ou penetrantes retratos close-up. Apesar de estes dois estilos serem muito diferentes – você consegue em ambos algo de inegavelmente semelhante. Uma redefinição do conceito de capturar a condição humana. Diga-nos, por que acha que isto acontece? Foi a sua formação em medicina? Foi a maneira que você foi educado? Como conseguiu desenvolver esta capacidade de interpretar criativamente o mundo das ruas? ”

VT: Ambos os estilos surgiram desde os primeiros momentos em que tudo (re) começou, em outubro de 2014, com um close-up (ver a foto do homem com barba e olhos penetrantes) e também com uma fotografia, mais abrangente, de um homem idoso sorrindo para um anúncio com uma imagem de uma bonita jovem.
Descobri que o tempo para fotografar as ruas me trouxe de volta ao contacto com as pessoas. Em vez de coisas.
De facto o fotógrafo tem progressivamente ocupado o lugar do médico em mim. Mas felizmente que fui médico pois agora posso fotografar sem ser “funcionário” fotográfico. Talvez não fosse capaz de fazer fotografia por encomenda. A fotografia é, para mim, um espaço de liberdade onde evoluo de um modo solitário. Nesses momentos só a fotografia existe e esqueço-me de mim próprio. Todos podem caber nos enquadramentos. Não há excluídos ou invisíveis no teatro da vida humana que tem um ponto alto nas representações que ocorrem no palco das ruas
No entanto, não sei se deva chamar de ”Fotografia de Rua” àquilo que faço. Como sabe existem controvérsias sobre a aplicação deste termo. Enquanto uns mais puristas defendem que Fotografia de rua deve ser exclusivamente “Candid” e feita sub-repticiamente à revelia das pessoas (para não modificar o fluxo normal dos acontecimentos), outros mais tolerantes têm um conceito mais abrangente. Há mesmo necessidade deste género de fotografia se reinventar e evoluir com novas abordagens. Penso que mesmo fazendo fotografias espontâneas a realidade é sempre de algum modo modificada. Bastam as margens do enquadramento para separar dois mundos (in e out) e criar o mundo mágico da fotografia que acaba por ser diferente daquilo que se passou na realidade. Já não vivemos na época dourada de Henri Cartier Bresson mas sim num tempo em que as leis e as pessoas “atacam” cada vez mais quem as fotografar nas ruas. Mesmo pedindo autorização depois.
Prefiro dizer apenas que as minhas fotografias são feitas pelas ruas e com as pessoas. Não me detenho nem preocupo com classificações que me podem impedir de fazer o que sinto, e como desejo, em plena liberdade intelectual.

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KD: “Ao ler a sua biografia notei que, na sua juventude, estava fascinado com os pintores da Europa, e que estudou a sua cultura estética. Qual o grande pintor que mais influenciou a sua fotografia e por quê? ”

VT: Especialmente a escola surrealista e Salvador Dali. Mas em termos fotográficos a influência mais importante foi a descoberta das fotografias de Tony Ray-Jones, em 1970, integradas no seu livro “a day off”. A sátira social e o humor subtil aliados a enquadramentos inteligentes e complexos (e subversivos) fizeram com que eu passasse a ver fotograficamente de um modo diferente e mais profundo. Outra influência significativa foi o olhar quase “caricatural” de Fellini.

KD: “Sobre a fotografia que você intitulou ” Never Hide” de um homem idoso, pode nos contar como criou esta imagem? Foi uma das primeiras fotografias suas que eu vi e pela qual fiquei muito fascinado. Conhecia o homem? Mudou-o de lugar para incluir o plano de fundo? Ele sabia que o Vasco estava obtendo a sua imagem? A câmara parece ser estar a poucas polegadas do seu rosto. Se ele sabia como se sentiu quando você fez a foto tão de perto? ”

VT: Encontrei este senhor idoso, muito engraçado e expressivo, com quase 90 anos, já sentado num banco de rua com o anúncio na parede por detrás. Vi a possibilidade do diálogo entre o homem e o plano de fundo. O seu nome é Sr. Milhanas (memorizo quase todos os nomes das pessoas a quem fiz close-ups). Este senhor confessou-me que anda muito pela rua para conseguir viver ainda muitos mais anos. Ao mesmo tempo que conversávamos eu fotografava com a câmara no nível do peito. Desfoquei ligeiramente o segundo e terceiro plano, de modo às palavras serem lidas. Depois de conversarmos mostrei as fotos com agrado do fotografado.

KD: “Paga às pessoas que fotografa? Ou, dá-lhes cópias? Nunca as vê novamente? Desenvolve uma conversa com elas, na altura, ou simplesmente captura o momento e segue em frente? ”

VT: Quando mostram interesse tenho muito prazer em oferecer uma fotografia impressa. Como foi o caso com a foto da D. Rosa – a mulher idosa com uma bengala passando ao lado de um anúncio com uma mulher jovem. Raramente as pessoas pedem dinheiro, mas às vezes acontece.

Como vivo numa pequena cidade – onde muitas pessoas me conhecem por causa da minha profissão como médico e ex-diretor do hospital local – o contacto torna-se mais fácil. Acontece por vezes reencontrar as mesmas pessoas e fotografa-las de novo.

KD: “Na sua nota biográfica afirma que o seu “caminho para ver ” foi estabelecido desde muito cedo. E que durante alguns anos você fotografou circos itinerantes, episódios da revolução portuguesa de 1974 e os antigos Hospitais Civis de Lisboa. O que aconteceu com essas fotos? Ainda as possui? Será que elas já revelavam o genial “Momento Decisivo” que o seu trabalho agora exibe, ou eram totalmente diferentes? ”

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VT: Com cerca de quatro anos de idade ensinaram-me a ler e o meu primeiro livro foi uma enciclopédia (Portuguesa – Lello Universal) ilustrada com reproduções de quadros dos grandes pintores. Foi fascínio à primeira vista e talvez tenha sido o meu primeiro passo para a construção de uma cultura estética.
Mais tarde, nos primeiros anos do ensino médio, o professor de desenho incentivava os alunos a organizar exposições com reproduções de quadros célebres que os alunos recortavam de calendários ou revistas. Estas “exposições” sobre as obras de grandes autores e temas de pintura constituiu um segundo passo importante na evolução do meu olhar. O início do “caminho para ver” ficou estabelecido.
Quando terminei a faculdade de medicina, comecei a fazer fotografia depois de o meu pai me ter oferecido uma Nikon F2. Estávamos na época de ouro da fotografia analógica – na década de 1970. Além de “Candids”, fotografei alguns circos itinerantes, alguns dos episódios da revolução de 1974, “Graffitis” e sobre a Vida e a Morte nos antigos Hospitais Civis de Lisboa, bem como sobre pessoas idosas que viviam nos denominados ” lares” para idosos.
Ainda mantenho esses negativos (35mm)  e algumas impressões. Alguns estão publicados no meu blogue “Heavenly”. Foi uma primeira fase na minha evolução fotográfica, mas onde há sobretudo fotografia com pessoas. Desde há cerca de um ano e meio regressei a este caminho.

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KD: “Este grande plano de um homem olhando directamente para a câmara revela muito – e poderá esconder alguma coisa. A pele e a barba conferem uma sensação dramática de dureza, mas os olhos parecem revelar uma suavidade interior. O que este homem lhe disse quando criou este retrato intenso? Fez simplesmente esta pose ou contou algo sobre sua vida? ”

VT: Este homem (Sr. Fernando) estava a almoçar no mesmo restaurante que eu – no dia 04 de Outubro de 2014. Percebi que o seu rosto daria um excelente retrato e conversei sobre a possibilidade de fazer a foto. Depois do almoço, o retrato foi feito à porta do mesmo restaurante. Gostei da imagem final e, assim, começou para mim um novo caminho e estilo fotográfico. O Sr. Fernando orgulhosamente utiliza esta foto como foto de perfil no Facebook.

KD: “Você me disse que depois de se aposentar da carreira médica, e de pegar na câmara de novo, começou com a fotografia da paisagem. Mas, posteriormente, você migrou para a Fotografia de Rua. Conte-nos sobre como se sente em relação a essas duas formas diferentes de expressão visual? Por que escolheu a fotografia de rua e abandonou a fotografia de paisagem? ”

VT: O processo de maturação de um fotógrafo demora muitos anos e subitamente pode desembocar num ponto de viragem e acelerar para um patamar diferente. Então tudo pode mudar.
Quando comecei, em 2010, a fazer fotografia digital (primeiro com uma câmara compacta de bolso) foi um impulso natural fotografar a Lagoa de Óbidos (a 8 km de distância da minha casa) que é a mais bonita e a maior de Portugal.
Mas tudo mudou desde há pouco mais de um ano atrás, quando redescobri o prazer (irresistível) de fazer fotografia nas ruas. Uma obsessão saudável e salvífica que me “obriga” a longas caminhadas diárias. Sem a fotografia talvez já não existisse. Vivo só e a fotografia também é o meu “antidepressivo” nestes dias após a reforma.
Por outro lado as fotos sobre momentos aparentemente comuns da vida nas ruas vão permitir, num futuro próximo, documentar, pensar e ler mais profundamente sobre uma época e ou sobre os locais onde foram feitas. Com o tempo irão falar por si próprias. Neste caso, sobre alguns aspectos da vida de uma pequena cidade no centro de Portugal.
Mas fazer fotografia nas ruas permitiu-me descobrir um novo caminho e, eventualmente, o meu próprio estilo – o que seria mais difícil de conseguir com fotos da paisagem.
É claro que o contacto com as pessoas foi crucial. Especialmente aquelas que devido a uma qualquer deficiência são excluídas pela sociedade.

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KD: “Você me disse que é tímido. É realmente tímido? Porque não o parece.”

VT: A fotografia feita na rua, para mim, é um exercício difícil de comunicabilidade que me força a superar minha timidez natural e ser uma pessoa melhor. Na verdade, é um grande desafio.

KD: “Referiu que tem três filhas. Será que elas também partilham o seu espírito fotográfico? Será que o seu estilo intimista também se aplica quando as fotografa? ”

VT: Quase sempre ouço a opinião das minhas filhas. Todas se interessam sobre fotografia e uma delas tem um curso superior de cinema. Também escuto o meu irmão mais novo (produtor de cinema e actualmente presidente da Academia Portuguesa de Cinema). As fotografias que faço com eles têm principalmente uma orientação de diversão familiar.

KD: “Nunca faço muitas perguntas sobre o equipamento fotográfico, porque sinto que o equipamento tem pouco a ver com a criação de fotografias excepcionais. Concorda com esta afirmação? Você se importaria de nos dizer que equipamento usa na sua fotografia de rua – para aqueles leitores que gostariam de saber? ”

VT: Uso uma Canon Mark III e uma Canon 5DSR com lentes: 11-24mm e 24-70mm. Mas concordo com a sua observação. Não devemos ser escravos da técnica fotográfica – que não consegue substituir o estilo, a emoção e a sensibilidade estética. O meio – fotografia não é tão importante quanto a própria imagem. A “alma” da imagem é mais importante do que os detalhes técnicos. Quando aprecio uma grande foto não pergunto “como?” mas “por quê?”. Existem diferenças entre um piano e uma sonata. Você pode possuir um piano topo de gama e não conseguir produzir boa música.
A fotografia pode ser ensinada mas os restantes 90% aparecem só à custa de suor, sangue e lágrimas do fotógrafo. A teoria e a técnica fotográfica são necessárias mas não são o mais importante. As fotografias não são as regras com que, por vezes, as tentam espartilhar. Quanto mais vemos fotos dos grandes mestres – mais descobrimos imagens que quebram aquelas regras. E não deixam, apesar disso, de ser grandes fotografias. Porque têm alma. A câmara é apenas um instrumento de navegação da alma.

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© Vasco Trancoso

 

KD: “Aparentemente deseja defender fotograficamente aqueles indivíduos que a sociedade tem posto de lado. Também tem interesse particular em documentar a exploração de crianças e ou de animais? Como é que a fotografia poderá ajudar esse segmento da sociedade?”

VT: As situações dramáticas ou trágicas podem ter um lado fascinante. A fotografia pode trazer à superfície uma dimensão heroica e a grandeza de gente menosprezada e marginalizada e tornar visível esse lado da nossa sociedade. Ao contrário da exploração banal e habitual com “clichés” de pedintes ou sem-abrigo.
Não podemos continuar a fingir que não vemos. Ser diferente é ser muitas vezes incompreendido por aqueles que não conseguem ver para além das aparências superficiais e a Fotografia tem o poder de transformar a realidade de acordo com nossos próprios sonhos.

KD: “Quando olho mais profundamente para os seus retratos. Parece-me que os seus retratados estão a olhar para você com amor e carinho. Estão mesmo? Como consegue conectar-se instantaneamente com essas pessoas de uma forma tão profunda e significativa? ”

VT: A empatia foi essencial na minha vida de médico e é agora também na minha vida de fotógrafo. É um facto que uma atmosfera amigável e relaxante é muito importante. Eu amo as pessoas que fotografo. A emoção é muito importante em fotografia.
Henri Cartier-Bresson disse: “A coisa mais difícil para mim é um retrato. Você tem que tentar colocar a câmara entre a pele de uma pessoa e a sua camisa.”.

KD: “De todas as fotografias que criou desde que faz Fotografia de Rua, qual é a sua favorita e porquê?”

VT: Tenho de concordar com a seguinte citação de Imogen Cunningham: “Qual das minhas fotografias é a minha favorita? A que eu vou fazer amanhã. “. A satisfação que surge após fazer uma boa foto acaba no dia seguinte com a vontade de fazer melhor.

KD: “Gostaria de terminar a nossa entrevista com uma citação da página de fotografia do Vasco no Facebook: ” Nas ruas sou feliz ao descobrir os milagres diários que surgem como fragmentos de uma dimensão paralela onde o banal e o comum podem ser extraordinários. ” Vasco… Isto demonstra o que sente ao fazer as suas fotografias. O seu trabalho tocou-me muito profundamente. Com toda a honestidade, eu tenho visitado dezenas de vezes o seu blogue “Heavenly” desde que o conheci. E não é apenas para apreciar as suas fotografias. É também para ler as suas palavras e a sua visão do mundo. Sinto-me abençoado por o ter conhecido.
A maioria dos fotógrafos que estarão lendo esta entrevista são amadores entusiastas que estão apenas começando. Tem alguma coisa que gostaria de dizer como incentivo ou orientação? E obrigado por fornecer esta entrevista “.

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VT: Bem, para aqueles que estão começando a fotografar nas ruas, eu diria que é fundamental andar sempre com uma câmara, caminhar muito e aproveitar a sorte. Os milagres diários esperam por nós.
Viva com paixão a fotografia – sem restrições e mantenha-se focado na construção de cada imagem.
Depois de olhar uma vez volte ao mesmo sítio e olhe novamente. Visite os mesmos locais e tente descobrir novas oportunidades
A paciência é uma das chaves. Construir um estilo próprio leva muito tempo. Sem negar todas as influências – deve tentar ser genuíno. Tentar criar “fora da caixa” e trabalhar cada imagem, como se fosse a última.
Encontramos inspiração olhando muitas vezes para os livros com fotos dos grandes Mestres e vendo boas exposições.
Desafie as regras e tente sempre evoluir gradualmente transformando o olhar fotográfico. As regras funcionam como uma orientação genérica sobretudo para quem começa o seu caminho fotográfico. Depois disso, não são tão importantes. Tudo vem e flui naturalmente.
Evite as fotos que são claramente um não assunto. O mundo já está cheio de “lixo” fotográfico (ex. fotografar as refeições – que são sobretudo para saborear em paz e alegria). Uma boa regra em fotografia de rua é seleccionar apenas um a cinco por cento das fotos realizadas.

 

Muito obrigado Kent pela simpatia das suas palavras e entrevista. Bem-haja.

Visita a galeria Olhares de Vasco Trancoso para conhecer outros trabalhos.