Um processo fotográfico por Marco Lemos

Como fotografo autodidata, dedicado à fotografia de paisagem, dou valor à partilha de informação, tanto técnica como de indicação e localização de spots fotográficos.

Como devem calcular, a fotografia de paisagem tem inerente uma boa dose de sacrifício, persistência e resiliência na captura da imagem previamente idealizada. Estamos sempre dependentes da conjugação de vários factores climáticos, desde a hora, posicionamento do sol, nebulosidade, vento, marés e ondulação (paisagem costeira). Para um bom registo, tudo tem que estar alinhado, o que nem sempre acontece.

Depois desta pequena introdução, “ v a g a s ” foi a fotografia que escolhi para descrição do seu processo fotográfico.

 

 

© Marco Lemos - Vagas
© Marco Lemos – Vagas

 

 

Em primeiro lugar, está sempre o planeamento: a escolha e localização do spot, a recolha de informação geográfica, trilhos e caminhos de acesso (google maps) e a análise da previsão meteorológica (windguru, ipma, tábua de marés, entre outros). A nebulosidade tem um enorme peso nas minhas incursões fotográficas, gosto particularmente de fotografar com as condições climatéricas mais “tenebrosas” e dramáticas possíveis.

Neste caso, o Farol do Penedo da Saudade, em São Pedro de Moel, uma zona costeira com falésias escarpadas e formações rochosas com excelentes texturas, que se erguem da água, sendo sistematicamente atingidas, com uma energia enorme, por violentas vagas que viajaram centenas de quilómetros.

Esta fotografia foi captada com uma câmera Canon EOS 5D Mark III com uma lente Canon EF16-35 mm f/4L IS USM. Para equilibrar a luminosidade e aumentar o tempo de exposição, usei um filtro de  densidade neutra em gradiente, Lee 0,9ND soft grad.

 

Velocidade 1”

Abertura f/10

Sensibilidade ISO160

Distância focal 16 mm

 

Por norma, vou sempre uma hora antes da hora ideal de começar a fotografar, para estudar o local e ver o enquadramento que mais me agrada.

Tento fazer no terreno um registo o mais equilibrado possível, para na edição não ter surpresas e trabalho desnecessário. Esta fotografia foi executada durante o crepúsculo vespertino, com uma nebulosidade de 70%, preia-mar a coincidir com o pôr do sol, ondulação de 2 m e vento com cerca de 12 nós do quadrante norte.

É muito importante ter em atenção a direcção do vento, neste género de fotografia. Neste caso, tinha o vento pelas costas de forma a evitar que as gotículas da ondulação em suspensão se acumulassem no filtro, causando danos irreversíveis no registo fotográfico.

O foco foi feito no elemento estático da falésia, junto ao farol, optando por um disparo lento (um segundo, o que em fotografia já é considerado uma longa exposição), para captar o arrasto causado pelo movimento da água nas rochas em primeiro plano, evidenciando, desse modo, o elemento estático rico em texturas. O reino das longas exposições abre portas a composições mais criativas, sendo a incorporação da sensação de movimento criada pelo arrasto e pela espuma da ondulação um exemplo. Para esta técnica fotográfica (longa exposição), é aconselhável o uso de um tripé robusto e estável.

No conforto do lar, vem a seleção, a análise e a edição dos ficheiros RAW, fase que, quanto a mim, requer disposição e inspiração, sempre acompanhado de um bom som adequado ao estado de espírito.

 

 

 

Para a edição, uso o Adobe Lightroom Classic, começando, basicamente pelo reenquadramento e nivelamento da imagem, se necessário. Seguem-se as fases de limpeza e remoção de manchas e/ou pontos de sujidade do sensor; equilíbrio da imagem, tanto das altas como das baixas luzes, tendo como referência o histograma; remoção do desvio cromático e activação das correções de perfil da lente, que por muito boa que seja, tem sempre desvios ópticos.

Tratando-se de um ficheiro RAW incremento ainda contraste, saturação e efeito vinheta, este último em alguns registos para aumento de dramatismo.

 

Por último, não menos importante, neste género de fotografia, e que importa não descurar nunca, é a segurança. Especialmente, no registo de paisagem costeira, relembro: olhar para onde se põem os pés; parar sempre que se pretenda observar a paisagem; não chegar muito perto de declives e falésias e nunca virar as costas ao mar. Não há fotografia que valha uma vida! Desfrutem.

 

 

ezgif.com-gif-maker

 

 

Texto e Imagens de Marco Lemos